5.3.09
Slow Food: uma nova proposta de alimentação
O movimento defende uma nova relação do homem com o alimento. Na contramão da fast food e da correria da vida moderna, a proposta do Slow Food é uma alimentação mais consciente, com mais prazer. Saiba mais: www.slowfoodbrasil.com
Marcadores:
alimentação,
berlinale,
biodiversidade,
carlos petrini,
fast-food,
piracicaba,
slow food
8.1.09
Enxergar, Refletir e Intervir - por uma Educação para o Consumo Responsável e o Comércio Justo (manual pedagógico)
É improvável encontrar alguém no supermercado, açougue ou padaria que pergunte ao comerciante a origem e forma de produção de algum dos produtos ali expostos, interessado em saber, por exemplo, se aquele fabricante de leite em pó não poluiu o ambiente com resíduos descartados na produção. Ou se sua empresa explora mão-de-obra miserável para baratear seu preço final. Ou, ainda, se sua entrada no mercado enfraqueceu ou acabou com a produção de cooperativas agrícolas que também manufaturavam lei em pó naquela região, e que não conseguiram competir com os baixos preços.
Só o consumidor consciente e incluído numa economia solidária - que dá espaço para grandes, médios e pequenos produtores - consegue mudar a lógica das relações comerciais. Foi para introduzir esse tipo de discussão - complexa, mas atual -- na escola que a organização não-governamental brasileira Instituto Kairós e a entidade francesa Fedération Artisans du Monde (Federação de Artesãos do Mundo) produziram o manual pedagógico Entender e Intervir - Por uma Educação para o Consumo Responsável e o Comércio Justo.
"Quando fazemos uma análise mais sistêmica, percebemos que o ato de consumir é uma questão política", explica Ana Flávia Borges Badue, coordenadora do Kairós e uma das responsáveis pelo manual. E que tem conseqüências socioeconômicas: segundo relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no ano passado, a renda per capita dos 10% mais ricos da população brasileira é 32 vezes maior do que a obtida pelos 40% mais pobres. Em outros países, as desigualdades tomam proporções mais alarmantes.
Depois de um primeiro encontro e posterior intercâmbio - ambos promovidos pela Associação Brasileira das Organizações Não-Governamentais (Abong) e pela sua equivalente francesa, Coordination Sud -, as duas ONGs deram início à produção do manual dirigido exclusivamente para professores.
Lançado no Brasil em outubro passado e na França em fevereiro, o trabalho foi patrocinado pela diretoria de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e do departamento de Educação Ambiental do Ministério da Educação, por meio do Programa Nacional de Educação Ambiental (Proneia), financiado pela Unesco, com apoio da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego.
"O capitalismo é a posse individual dos meios coletivos de produção. Já o comércio solidário é a posse coletiva dos meios coletivos de produção", explica Sônia Maria Portella Kruppa, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e da Fundação Santo André. Especializada no tema Economia Solidária, ela analisou o conteúdo do manual assim que ficou pronto. "Ele tem uma estrutura que permite a discussão conceitual para intervir no consumo e comércio, e deve ser aplicado em conjunto por professores de todas as disciplinas", diz. A única crítica foi com relação à forma: "Ele poderia ter fichas soltas para facilitar o uso".
Organização - O manual está dividido em duas partes: uma teórica, com quatro capítulos de informações sobre o tema para dar suporte ao professor ("Sociedade do consumo", "Os meios de comunicação e a publicidade", "As relações comerciais desiguais", "As alternativas"); e outra prática, com setes capítulos com sugestões de atividades e exercícios para serem aplicados junto aos alunos ("Por que consumimos?", "Somos manipulados pela mídia?", "Quem decide o quê?". "Podemos comprar tudo?", "Quanto isso custa?", "Consumir mais ou melhor?" e "Intervir juntos!")
O conteúdo tem influências das teorias do educador Paulo Freire, dos preceitos da Educação Ambiental, da Educação dos Direitos Humanos e também da Educação para o Desenvolvimento. "O método recupera aquele que foi usado pela Juventude Universitária Católica, movimento surgido durante a década de 40, que é o do 'Ver, julgar e agir'. O manual sugere, então, o 'Enxergar, refletir e intervir'", afirma a docente, referindo-se ao movimento que teve como principal expoente o missionário Dom Hélder Câmara.
Por abordar temas que exigem reflexão e certo repertório, o manual foi dirigido para os professores do ensino médio formal. "É a forma de se inserir na escola a discussão do emprego, geração de renda e trabalho. O jovem acabou surgindo como foco, pois está passando pela fase de formação do caráter, de personalidade e de consolidação de uma postura de mundo", explica Fabíola Marono Zerbini, também diretora do Instituto Kairós e responsável pelo projeto.
Apesar do apoio junto às entidades de Economia Solidária nacionais e internacionais, o projeto do manual aguarda por verbas federais, estaduais e municipais para ser introduzido na grade curricular. Ele ainda não foi aplicado em nenhuma escola. "Mas sabemos que professores que conseguiram ter acesso ao manual já o estão explorando de forma independente", conta Fabíola. Com o apoio financeiro recebido até o momento, conseguiu-se uma tiragem de mil exemplares. Parte foi distribuída para as entidades federais apoiadoras, outra para a rede de associados do Kairós. No futuro, será usado na contrapartida com as secretarias estaduais e municipais de Educação que fecharem parceria.
O Kairós também pretende oferecer o conteúdo do manual nas páginas do MEC, do Ministério do Meio Ambiente e da própria ONG na internet. Tudo para disseminar esse conteúdo que pede atenção e tem urgência em ser compreendido, segundo Ana Flávia. "É começar desde o início a fazer as pessoas pensarem no quanto as relações econômicas pautam a vida da gente, e o quanto elas têm uma relação com o jogo político, econômico e do estado da desigualdade social que vivemos hoje", observa.
*Texto de Rachel Bonino, publicado na Revista EDUCAÇÃO - Edição 109: http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=11738
Só o consumidor consciente e incluído numa economia solidária - que dá espaço para grandes, médios e pequenos produtores - consegue mudar a lógica das relações comerciais. Foi para introduzir esse tipo de discussão - complexa, mas atual -- na escola que a organização não-governamental brasileira Instituto Kairós e a entidade francesa Fedération Artisans du Monde (Federação de Artesãos do Mundo) produziram o manual pedagógico Entender e Intervir - Por uma Educação para o Consumo Responsável e o Comércio Justo.
"Quando fazemos uma análise mais sistêmica, percebemos que o ato de consumir é uma questão política", explica Ana Flávia Borges Badue, coordenadora do Kairós e uma das responsáveis pelo manual. E que tem conseqüências socioeconômicas: segundo relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no ano passado, a renda per capita dos 10% mais ricos da população brasileira é 32 vezes maior do que a obtida pelos 40% mais pobres. Em outros países, as desigualdades tomam proporções mais alarmantes.
Depois de um primeiro encontro e posterior intercâmbio - ambos promovidos pela Associação Brasileira das Organizações Não-Governamentais (Abong) e pela sua equivalente francesa, Coordination Sud -, as duas ONGs deram início à produção do manual dirigido exclusivamente para professores.
Lançado no Brasil em outubro passado e na França em fevereiro, o trabalho foi patrocinado pela diretoria de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e do departamento de Educação Ambiental do Ministério da Educação, por meio do Programa Nacional de Educação Ambiental (Proneia), financiado pela Unesco, com apoio da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego.
"O capitalismo é a posse individual dos meios coletivos de produção. Já o comércio solidário é a posse coletiva dos meios coletivos de produção", explica Sônia Maria Portella Kruppa, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e da Fundação Santo André. Especializada no tema Economia Solidária, ela analisou o conteúdo do manual assim que ficou pronto. "Ele tem uma estrutura que permite a discussão conceitual para intervir no consumo e comércio, e deve ser aplicado em conjunto por professores de todas as disciplinas", diz. A única crítica foi com relação à forma: "Ele poderia ter fichas soltas para facilitar o uso".
Organização - O manual está dividido em duas partes: uma teórica, com quatro capítulos de informações sobre o tema para dar suporte ao professor ("Sociedade do consumo", "Os meios de comunicação e a publicidade", "As relações comerciais desiguais", "As alternativas"); e outra prática, com setes capítulos com sugestões de atividades e exercícios para serem aplicados junto aos alunos ("Por que consumimos?", "Somos manipulados pela mídia?", "Quem decide o quê?". "Podemos comprar tudo?", "Quanto isso custa?", "Consumir mais ou melhor?" e "Intervir juntos!")
O conteúdo tem influências das teorias do educador Paulo Freire, dos preceitos da Educação Ambiental, da Educação dos Direitos Humanos e também da Educação para o Desenvolvimento. "O método recupera aquele que foi usado pela Juventude Universitária Católica, movimento surgido durante a década de 40, que é o do 'Ver, julgar e agir'. O manual sugere, então, o 'Enxergar, refletir e intervir'", afirma a docente, referindo-se ao movimento que teve como principal expoente o missionário Dom Hélder Câmara.
Por abordar temas que exigem reflexão e certo repertório, o manual foi dirigido para os professores do ensino médio formal. "É a forma de se inserir na escola a discussão do emprego, geração de renda e trabalho. O jovem acabou surgindo como foco, pois está passando pela fase de formação do caráter, de personalidade e de consolidação de uma postura de mundo", explica Fabíola Marono Zerbini, também diretora do Instituto Kairós e responsável pelo projeto.
Apesar do apoio junto às entidades de Economia Solidária nacionais e internacionais, o projeto do manual aguarda por verbas federais, estaduais e municipais para ser introduzido na grade curricular. Ele ainda não foi aplicado em nenhuma escola. "Mas sabemos que professores que conseguiram ter acesso ao manual já o estão explorando de forma independente", conta Fabíola. Com o apoio financeiro recebido até o momento, conseguiu-se uma tiragem de mil exemplares. Parte foi distribuída para as entidades federais apoiadoras, outra para a rede de associados do Kairós. No futuro, será usado na contrapartida com as secretarias estaduais e municipais de Educação que fecharem parceria.
O Kairós também pretende oferecer o conteúdo do manual nas páginas do MEC, do Ministério do Meio Ambiente e da própria ONG na internet. Tudo para disseminar esse conteúdo que pede atenção e tem urgência em ser compreendido, segundo Ana Flávia. "É começar desde o início a fazer as pessoas pensarem no quanto as relações econômicas pautam a vida da gente, e o quanto elas têm uma relação com o jogo político, econômico e do estado da desigualdade social que vivemos hoje", observa.
*Texto de Rachel Bonino, publicado na Revista EDUCAÇÃO - Edição 109: http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=11738
Marcadores:
alimentação,
comércio justo,
consumo consciente,
material didático
8.12.08
Slow Food em Porto Alegre: promovendo a relação direta entre agricultores e consumidores
No dia 13 de dezembro de 2008 será lançando um novo Convivium do Slow Food. O evento será em Porto Alegre e o Convivium traz uma proposta muito interessante: promover a relação direta entre produtores e consumidores, para isso o pessoal está mapeando comunidades de pequenos agricultores do Rio Grande do Sul e vai atuar em parceria com a GiraSol (cooperativa de consumo responsável).
A atividade de lançamento do Convivium será uma delícia: apresentações sobre temas relativos ao Slow Food (o movimento, produção agroecológica de alimentos, relação entre consumidores e produtores, educação do paladar) seguido por um coquetel com produtos tradicionais.
Para quem quiser entender mais sobre a relação entre Slow Food e consumo responsável, sugiro a leitura do "Bom, Limpo e Justo: Manifesto Slow Food para a Qualidade do Alimento"
Saiba mais sobre o Convivium e sobre a atividade de lançamento: Produtos da Terra: lançamento do Convivium em Porto Alegre
Quando: 13/12/2008, a partir das 15h
Quanto: R$ 10,00 (valor destinado para despesas do coquetel e espaço do evento)
Onde: Ponto de Cultura Casa do Cristal Quilombo do Sopapo
Av. Capivari 602 - Bairro Cristal - Porto Alegre, RS - Brasil
A atividade de lançamento do Convivium será uma delícia: apresentações sobre temas relativos ao Slow Food (o movimento, produção agroecológica de alimentos, relação entre consumidores e produtores, educação do paladar) seguido por um coquetel com produtos tradicionais.
Para quem quiser entender mais sobre a relação entre Slow Food e consumo responsável, sugiro a leitura do "Bom, Limpo e Justo: Manifesto Slow Food para a Qualidade do Alimento"
Saiba mais sobre o Convivium e sobre a atividade de lançamento: Produtos da Terra: lançamento do Convivium em Porto Alegre
Quando: 13/12/2008, a partir das 15h
Quanto: R$ 10,00 (valor destinado para despesas do coquetel e espaço do evento)
Onde: Ponto de Cultura Casa do Cristal Quilombo do Sopapo
Av. Capivari 602 - Bairro Cristal - Porto Alegre, RS - Brasil
10.11.08
Moeda social substitui dinheiro e estimula desenvolvimento local
Não existe crise na economia solidária, na qual a riqueza fica na própria comunidade.O mundo financeiro mudou. As bolsas encolheram, moedas esvaziaram-se e grandes bancos desapareceram do mapa. No Brasil, existem, porém, 33 comunidades que dão as costas para o que acontece no resto do planeta. Se consultadas, seriam capazes de dar lições de economia aos poderosos. Elas imprimem o seu próprio dinheiro, só compram com desconto e emprestam a menos de 1% ao mês. Não é pouca coisa. A chamada economia solidária já conta com 35 bancos e cinco moedas próprias em circulação. No lugar do real, entram papéis alternativos, como a palmas, o bem, a terra ou a oração, que chegam a valer mais do que a moeda oficial do país.
Dentro do sistema de economia solidária, não existe crise financeira. Nem internacional, nem local. O funcionamento é simples: em vez de pagar em reais, o consumidor usa a moeda social em circulação no seu bairro ou cidade. No comércio local, ele ganha desconto ao pagar com esse dinheiro. Já o comerciante pode desfazer a troca no banco social, se tiver necessidade de fazer compras fora da comunidade. “Com isso, a riqueza fica dentro do bairro, pois o pagamento em palmas ou orações não tem valor fora dali”, observa. É o oposto da economia globalizada, onde o investidor só aplica no Brasil se ele for o país mais rentável no momento. “Durante uma crise, os investimentos evaporam, porque não há nenhum vínculo com o país ou com a comunidade. A riqueza muda muito rapidamente de lugar”, compara Peterson Gandolfi, professor de administração da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
A primeira experiência com moeda social de Minas Gerais está instalada em Uberlândia, na rica região do Triângulo Mineiro. Quem colabora na organização não-governamental (ONG) Ação Moradia recebe o pagamento pelas horas trabalhadas em hora-ação, o nome oficial da moeda. Em mineirês, foi encurtado para oração. Na prática, cada hora de colaboração na cozinha, na limpeza ou na costura corresponde a uma oração. Com o tempo, Enilda passou a achar mais bonito receber o salário em moeda solidária. “Aqui dentro, a oração vale do mesmo jeito que o real”, completa.
Com as cédulas na mão, devidamente numeradas e plastificadas, é possível trocar por mercadorias usadas no bazar, que recebe doações de eletrodomésticos, móveis e computadores das empresas da região. Na tabela de preços, um par de meias vale duas orações, um fogão sobe para 50 orações e o computador atinge o teto de 70 orações. “Nenhuma comunidade é tão pobre que não consiga gerar sua própria riqueza. O problema é que o trabalhador gasta o seu salário mínimo no supermercado das grandes redes, em vez de dar preferência para o mercadinho do bairro. Com a moeda alternativa, o dinheiro forçosamente vai ficar dentro da comunidade e circular lá dentro. Quem quiser comprar fora terá de trocar por reais”, explica o empresário Oswaldo Cetti, que fundou a entidade com a mulher, Eliana Maria Carrijo Setti. No caso dele, a moeda social também minimizou o dilema na hora de distribuir as doações de bens de maior valor e ajudou a captar mais horas de trabalho “voluntário” entre as pessoas da comunidade.
Bom, seguro e sempre solidário
Cadastros de clientes são baseados na confiança e praticamente não há inadimplência no setor. Mas também existem regras legais para os bancos sociais
O 15 de setembro de 2008 já entrou para a história como o marco do maior crash internacional depois de 1929. Nesse dia, o mundo percebeu o alcance da quebradeira quando o Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos americano, pediu concordata. Não há risco de nada parecido ocorrer com nenhum dos 35 bancos comunitários brasileiros que, do dia para a noite, se tornaram as únicas instituições realmente sólidas no mercado. Só por um motivo: a garantia é de outra ordem, não-financeira. “Aqui não há como ocorrer o subprime americano (traduzido como distribuir empréstimos imobiliários a quem não tem condições de pagar). Antes de emprestar, o banco vai lá na casa dele e pergunta para o vizinho e para a sogra se o fulano é bom pagador, se ele costuma atrasar as contas. Com isso, consegue fazer uma avaliação de cadastro mais profunda do que o sistema internacional de crédito”, diz Peter Gandolf, da UFU.
Para Oswaldo Cetti, fundador da ONG Ação Moradia, nenhuma comunidade é tão pobre que não possa gerar sua própria riqueza.
Nos bancos sociais, a inadimplência acima de 60 dias é perto de zero. Em média, o atraso nas prestações não passa de 10 dias. “Quem ficou devendo dá um jeito de arranjar dinheiro, pega emprestado com parentes para não ficar inadimplente com o banco e nem sujar o nome. Ele sabe que atrasar no banco é coisa séria, pois o dinheiro é da comunidade, é dele”, explica o professor da UFU. Também o critério de cessão dos créditos é outro, proporcional à necessidade do tomador. “Os critérios são definidos por agentes de crédito escolhidos pela comunidade. Não é porque o mundo está caindo que o banco vai negar o financiamento de R$ 500 para o pipoqueiro que precisa comprar um novo carrinho para trabalhar. Se o dinheiro está mais curto e falta liquidez no mercado, ele terá preferência”, completa.
As comunidades também sofrem com as oscilações do real, porque as moedas sociais têm paridade com a moeda oficial. Para cada oração ou palma, o banco social tem um real guardado em caixa. Isso garante que as moedas sejam lastreadas em reais e mantém os bancos dentro da lei – que restringe a emissão de dinheiro ao Banco Central (BC).
Mas as regras comuns das notas de real caem por terra diante da realidade. “Se o tráfico matou três filhos de um correntista, caso verdadeiro que ocorreu em nosso banco, foi feita uma renegociação da dívida em mais prestações. No banco tradicional, ele passaria a ser um inadimplente. A decisão passou pelo crivo das pessoas da comunidade, que assumem o compromisso de manter o banco funcionando, de acordo com a disponibilidade de caixa”, informa Leonora Laiboissière Mol, presidente do Banco Bem, de Vitória, no Espírito Santo, o primeiro da Região Sudeste.
Valores
Em três anos, o modelo do Banco Bem já foi replicado no Banco Terra e Banco Verde Vida, em Vila Velha, e no Banco Sol, em Cariacica. A proposta de abrir um banco social chegou a ser apresentada em Uberlândia, mas não foi para frente. A entidade recusou também o projeto de instalar uma filial do Banco Popular do Brasil, subsidiária do Banco do Brasil voltado para o microcrédito. “O BB estava mais interessado em dar empréstimos aos moradores, a juros que variam de 1,5% a 3,5% ao mês. Não havia uma contrapartida”, reclama Oswaldo Cetti. Segundo ele, algumas vezes não adianta explicar a proposta da entidade. “Nessa altura da vida, o dinheiro além do necessário perde o sentido. De herança, quero deixar outros valores”, conclui.
Moedas já circulam em 33 cidades
As moedas sociais circulam hoje em 33 comunidades, sendo 24 delas no Ceará. Em municípios menores, a moeda circula por toda a cidade, caso do acaraú, em Tamboril. Na capital Fortaleza, a mais forte é a palmas, do Conjunto Palmeiras. Pelo Banco Palmas, circulam atualmente cerca de 25 mil palmas, aceitas em 250 pontos de comércio cadastrados.
“Na nossa comunidade não tem inflação, porque não há excesso de dinheiro na praça. Nós mapeamos a produção e a necessidade de consumo local. Se os moradores precisam de 800 sabonetes por mês, damos um incentivo para abrir a fábrica da Palmalimp, que vai produzir sob encomenda”, explica João Joaquim de Melo Segundo, coordenador da Rede Brasileira de Bancos Comunitários e do Instituto Banco Palmas.
Oferta e procura
Segundo Joaquim, ao fazer isso, a economia solidária não subverte a lei da oferta e da procura (a lei máxima do mercado), mas equilibra os pratos da balança. “É a lei da justa medida. O capitalismo trabalha com o princípio da escassez, onde uns ganham e outros perdem. A nossa é a teoria da abundância, onde tem espaço para todo mundo.” A teoria é muito bonita. Mas funciona, na prática? “Estamos provando que sim. Basta reorganizar a economia para gerar trabalho e emprego”, defende João Joaquim.
Um desafio é o livre-arbítrio dos moradores nas decisões de compra. Surge a dúvida: e se a dona-de-casa do Conjunto Palmeiras quiser continuar usando o detergente da Bombril? “É preciso conscientizar a comunidade, mostrar que existe uma diferença profunda entre levar o produto da Palmalimp e o da Bombril, uma grande marca americana que já está rica. Ela terá de fazer a opção entre ter o bico dosador ou apostar na fábrica local, que no futuro vai contratar um jovem do bairro. A maneira como a gente consome define o tipo de sociedade que queremos construir”, afirma. Para substituir o bico dosador, Joaquim sugere bater um prego na ponta da embalagem plástica, que, segundo ele, faz o mesmo efeito.
*Texto de Sandra Kiefer, publicado no jornal Estado de Minas, 9/11/2008
Marcadores:
cooperativas,
desenvolvimento,
Economia Solidária,
moeda social
Assinar:
Postagens (Atom)